segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

DRAGHI ENTERRA O MODELO SOCIAL EUROPEU – por Philippe Mabille

By carlosloures 19 de Novembro de 2012 EconomiaGeral Publicar um comentário
Enquanto o BCE se apronta para passar um novo cheque de  500mil milhões de euros aos bancos, o seu Presidente  disse sem quaisquer rodeios que para sair da crise, os paísessobre endividadosnão têm escolha que não  seja a de  praticar uma política de austeridade extrema. Palavras chocantes, mas necessárias, pensa o jornal LaTribune (texto seleccionado e traduzido por Júlio Marques Mota).
“O modelo social europeu está morto!” Nunca um banqueiro central falou  comtanta  brutalidade  sobre a crise que atravessamos. As observações feitas pelo italiano Mario Draghi, sucessor de Jean-Claude Trichet,numa  longa entrevista ao Wall StreetJournalna sexta-feira, 24 de Fevereiro, são de tal modo violentas, pelo que  envolvem, que ele nunca as poderia ter dito em nenhum outro lugar que não seja  na “Bíblia” das finanças globais, o Wall  StreetJournal. Mesmo Jean-Claude Trichet tinha muito mais cuidado na língua quando tentou explicar aos europeus o que os esperava.
Para Mario Draghi, ex-banqueiro de Goldman Sachs e nova estátua do comandante da moeda na Europa, salvar o euro terá um preço alto. Na sua opinião  não  há nenhuma escapatória possível à implementação de políticas de austeridade duras   em todos os países sobreendividados  e isso implica renunciar  a um modelo social baseado na segurança do emprego e na generosa redistribuição social.
Este modelo em que a Europa baseou a sua prosperidade depois da Segunda Guerra Mundial desapareceu (“as gone”), diz Mario Draghi que lembrou aos jornalistas do  WSJ a  fórmula do  economista alemão RudiDornbusch: “Os europeus são tão ricos que podem ter recursos para pagar às pessoas para não trabalhar”.
A Margaret Thatcher dos tempos modernos
A intervenção do chefe do BCE pode parecer uma provocação, poucos dias antes do Banco Central renovar  um segundo cheque de  500 mil milhões de euros aos bancos que chegará quarta-feira, 29 de Fevereiro,  dinheiro emprestado através da janela ilimitada  que  criou para salvar o euro. Comoescapar , com tais intenções,  das críticas crescentes segundo as quais  o sistema  está a  sacrificar as pessoas para salvar os bancos?
Os argumentos apresentados por Mario Draghi são sem apelo: qualquer recuo  sobre as ambições de programas de desendividamento da dívida pública irá causar uma reacção imediata dos mercados que vai empurrar as taxas de juros pagas pelos Estados para a alta , tornando ainda mais difícil, se não impossível, a recuperação das finanças públicas. Isso é o que aconteceu com a Grécia eainda  não ocorreu  em Portugal, na Espanha, na Itália.[Já ocorreu]
As palavras de Mario Draghi não foram ditas , obviamente, sem ligação com o calendário eleitoral europeu.Em Abril na Grécia, em Maio em França, na Primavera de  2013 em Itália, o povo votará para escolher o seu destino.
Explicando à maneira de uma Margaret Thatcher dos tempos modernos, que  qualquer que seja o resultado da votação, o governo eleito não têm alternativa que não seja a prosseguir políticas de extrema disciplina, de extrema austeridade, se prosseguir nas reformas estruturais do mercado de trabalho e adesmantelar um pouco mais o seu modelo social,  o Presidente do BCE mostra bem as suas unhas.
A escolha dos antigos de  GoldmanSachs
E que não lhe venham   dizer que a acalmia  actual nos mercados significa que a crise acabou. A prova de que não é este o caso chegará na quarta-feira, 29 de Fevereiro, quando os bancos forem  buscar o apoio financeiro do  BCE, sem o qual o sistema financeiro  não s pode aguentar .
Sem a infusão dos bancos centrais, nos Estados Unidos com a quantitativeeasing, a política monetária expansionista, [a QE, reduz quase zero a taxa directora ] do Fed, na Europa, com o financiamento a longo prazo [LTRO] do BCE, tudo entraria em colapso! Até mesmo a China está a diminuir o apoio aos seus bancos  em dificuldade. Bem-vindoaomundo cruel do ” QEMundial”.
Por esta tomada de posição muito dura, Mario Draghiapela a uma tomada de consciência .Vale mais, na sua opinião, passar por uma severa purga e por reformas estruturais imediatas de modo a restabelecer a confiança dos mercados do que viver dez anos terríveis sob a sua pressão.
Esta é a escolha feita por Mario Monti em Itália, com sucesso até agora, pois que  em 100 dias, este outro antigo Goldman Sachsconseguiu a  tirar o seu país do centro  do ciclone  mudando, como nunca, a cara da Itália. A lição é válida  [também] para  outros países.
Reacção
Relançar o modelo social em vez de o abandonar
A morte do modelo social europeu é deplorável e põe em risco o sistema financeiro e a política europeia, escreve Wochenzeitung. Ao permitir que os mercados financeiros operem à sua vontade e que as  taxas de juro fiquem à mercê das agências de notação, a ajuda  concedida à  Grécia está, na opinião do semanário suíço de esquerda, condenada ao fracasso e “o próximoagravamento da crise é apenas uma  questão de tempo”.
Este  defende como sendo a única solução a rejeição completa das exigências da Troika EU-BCE-FMI e o restabelecimento da soberania grega em  termos do orçamento:
Os objectivos devem ser uma ponderação dos níveis de produtividade e dos salários entre os países. Uma política industrial europeia dirigida para uma Europa a re-industrializar-se é hoje uma necessidade . A repartição patrimonial e salarial entre as classes, mas também entre os países da zona euro, deve ser nivelada através de uma  maior tributação dos salários elevados e das fortunas. O resultado seria uma maior igualdade perante o imposto na Europa, em vez de apenas mais eficiência na Grécia.
Philippe Mabille , La Tribune, Paris, Fevereiro, 2012.

A Economia dos Nossos Filhos by Barry Eichengreen - Project Syndicate

A Economia dos Nossos Filhos by Barry Eichengreen - Project Syndicate

terça-feira, 29 de janeiro de 2013


Frederico Turolla
O biênio 1998-1999 entrou para a história do Brasil. Em meio a uma forte crise, o país completou a transição do regime de estabilização de preços. Foi uma experiência doída, mas necessária, para todas as nações que passaram por isto.
Naquele biênio, assistiu-se a uma tríplice mudança de regimes:
  • em outubro de 1998, o Programa de Estabilidade Fiscal completou um amplo conjunto de reformas voltadas para a solvência nos três níveis de governo;
  • em janeiro de 1999, o real saiu da banda, e as expectativas de estouro da inflação não se materializaram; e
  • em maio de 1999, na gestão Fraga no Banco Central e Malan na Fazenda, o regime monetário foi ajustado para as metas de inflação, com o decreto 3.088/99, de apenas 6 artigos.
Formou-se um tripé de regimes de política econômica que ancorou as expectativas dos agentes econômicos por mais de uma década. Este constituiu uma sólida estrutura macroeconômica, que permitiu ao país aproveitar a dupla janela de oportunidades que veio em seguida.
Do lado de dentro da janela, os benefícios das amplas reformas institucionais dos anos 90. Do lado de fora, a era de ouro dos países emergentes. Foi fundamental a escolha de Lula, de permitir até um reforço no tripé sob Palocci e Meirelles, o que foi decisivo para catapultar o país ao destaque internacional que vivemos até 2011.
O biênio 2012-2013 pode, igualmente, entrar para a história. Nesse biênio, o tripé de regimes vem perdendo duas de suas bases de sustentação, que viraram pés-de-barro. O câmbio não flutua mais. O superávit primário está virando conta de energia, subsídio ao BNDES e outras bondades federais para a copa e a cozinha.
O tripé virou um autêntico saci-pererê. Se você não acredita em sacis, o governo sim.
Uma nota necessária: na Argentina, nem pé de saci se tem. Lá, a política econômica não precisa de nenhuma sustentação física: flutua, sustenta-se no ar, levitando ao sopro da magia de Cristina. Se for ilusionismo barato, problema deles. Voltemos ao nosso problema.
Sobrou, assim, o regime de metas de inflação. Claro que alguns dirão que estou exagerando no otimismo, ao defender que ainda existe um regime de metas de inflação. Afinal, estamos todos, incluindo o câmbio, o prefeito de São Paulo, o governador de São Paulo, e dizem que até mesmo as chuvas, unidos em uma cruzada contra a inflação. Como conclamava o presidente Sarney, vamos juntos pelo país.
Claro que estas jabuticabas brotam no Brasil e estão em plena safra. Lembra, bastante, aquela safra de jabuticabas grandonas dos anos 70/80. Porém, se há algum motivo para alento, foi o diagnóstico da ata do Copom, que saiu na semana passada.
A ata trouxe diagnóstico duro e um recado: cortar juros não nos libertará do pibinho. O barco do Banco Central não tem a “boia de prata”. Leia:
“26. O Copom pondera que o ritmo de recuperação da atividade econômica doméstica – menos intenso do que se antecipava – se deve essencialmente a limitações no campo da oferta. Dada sua natureza, portanto, esses impedimentos não podem ser endereçados por ações de política monetária, que são, por excelência, instrumento de controle da demanda. A propósito, não obstante a fragilidade do investimento, que reflete, em grande parte, o aumento de incertezas e a lenta recuperação da confiança, a demanda doméstica continuará a ser impulsionada pelos efeitos defasados de ações de política monetária implementadas recentemente, bem como pela expansão moderada da oferta de crédito, tanto para pessoas físicas quanto para pessoas jurídicas. O Comitê entende, adicionalmente, que a atividade doméstica continuará a ser favorecida pelas transferências públicas, bem como pelo vigor do mercado de trabalho, que se reflete em taxas de desemprego historicamente baixas e em crescimento dos salários, apesar de certa acomodação na margem”.
Desde a criação do COPOM, em 1996, a presidência do Comitê foi confiada a banqueiros centrais de reputação e destaque internacional. Apesar da reputação e competência de Alexandre Tombini, a ruptura de pelo menos dois regimes coloca-o, junto ao seu Conselho, sob uma perigosa espada de Dâmocles: o recrudescimento da inflação, que pode manchar um octeto de biografias.
É ótimo que se revoltem e mandem seu recado. Tomara que continuem assim, pois têm mandato para isto.
Avisaram ao governo que não adianta aprisionar o COPOM na garrafa, pois em economia, saci não tem poderes mágicos. O nome do jogo é investimento produtivo, como sempre foi, e em última instância, a produtividade, que o governo insiste em derrubar.
Enviado porLeonardo Trevisan

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

A breakdown of trust


Brazil’s economy

A breakdown of trust

If she wants a second term, Dilma Rousseff should get a new economic team

JUST two years ago, when Dilma Rousseff was elected Brazil’s president, the country’s economy was booming. It then ground to a halt and is now struggling to recover. Despite increasingly frantic official efforts at stimulation, the moribund creature grew by only 0.6% in the third quarter—half the number forecast by Guido Mantega, the finance minister. Most market analysts now expect GDP growth to be less than 1.5% this year and not much more than 3% next year. So much for the notion that the B in the BRICs is a speedy economy.
The motors of growth that powered Brazil in the past decade are sputtering. Prices of commodity exports, though still high, are no longer rising. Consumers are using more of their income to pay off the loans with which they had bought cars and televisions. Low unemployment means there are fewer idle hands to be put to work. Instead of relying on consumption, growth now has to come from higher productivity and investment. That means hacking away at the “Brazil cost”: the combination of red tape, heavy taxes, expensive credit, creaking infrastructure and an overvalued currency that makes it a punishingly expensive country to do business in.
Ms Rousseff has recognised the need to improve competitiveness. Her economic team says its aim is to prompt a supply-side, investment-led recovery. In the past 15 months the Central Bank has slashed interest rates by 5.25 percentage points, to 7.25% (only two points above inflation). That has helped to weaken the currency and help manufacturers. The government has cut payroll taxes for industry (but not most services). It is also slashing electricity tariffs and inviting private operators to upgrade airports, roads and railways.
Despite all this, investment has fallen in each of the past five quarters. It now amounts to just 18.7% of GDP, against 30% in Peru in 2011 and 27% in Chile and Colombia—Latin America’s new high-growth economies.
Business is cautious because the government meddles too much. A prime example is its apparent desire to drive down the return on investment by diktat, not just for banks but also for electricity companies and other infrastructure-providers. Even more than her predecessor, Luiz Inácio Lula da Silva, Ms Rousseff seems to believe that the state should direct private investment decisions. Such micro-meddling undermines trust in macroeconomic policy as well.
Stop meddling and let animal spirits roar
The Central Bank may be tempted to react to the latest figures with another interest-rate cut. That would be a mistake. Instead the government should redouble efforts to cut the Brazil cost—by, for instance, tackling labour laws—and thus letting the private sector’s animal spirits roar. The worry is that the president herself is meddler-in-chief. But she insists she is pragmatic. If so, she should fire Mr Mantega, whose over-optimistic forecasts have lost investors’ confidence, and appoint a new team capable of regaining the trust of business.
Ms Rousseff’s hope seems to be that full employment and rising real wages will be enough to secure her a second term in 2014. But these depend on renewed growth. Lula won a second term because his policies lifted millions of Brazilians out of poverty. The electorate similarly rewarded Fernando Henrique Cardoso, Lula’s predecessor, because he slew inflation. And Ms Rousseff? Voters may judge that in trying to juggle so many economic balls, she dropped most of them.

Razão e relinchos


07/12/2012 - 03h01

Razão e relinchos

DE SÃO PAULO
Existe um livro de Schopenhauer chamado "Como Vencer um Debate sem Precisar Ter Razão" (ed. Topbooks). Um dos riscos de escrever uma coluna de jornal hoje, ou de opinar em qualquer instância pública, é o oposto: ser ignorado, quando não perseguido e açoitado num pelourinho de grunhidos, relinchos e cacarejos, a despeito da mais cuidadosa argumentação.
Convencer alguém a mudar de ideia não é algo comum em nosso tempo. Basta uma semana nas redes sociais para perceber: militantes pró e contra aborto, descriminação da maconha, eutanásia, cotas, cabras e sobrenomes Guarani-Kaiowá, a maioria está ali para confirmar certezas prévias ou se irritar com quem diz o contrário.
Uma radicalização que também nasce do meio: para que os palpites sejam ouvidos entre tantas vozes, a tendência é que o adjetivo prevaleça sobre o termo exato, a ênfase sobre a ponderação, as regras generalizantes sobre as nuances que tiram a graça e o colorido das frases e slogans.
Num cenário assim, não é difícil adotar um tom nostálgico ou apocalíptico. Talvez se possa lamentar o fim de uma suposta era de ouro dos debates elevados.
Prefiro seguir achando que a humanidade não mudou tanto: apenas passamos a ouvir, graças a uma tecnologia muito mais benéfica que perniciosa, que criou possibilidades infinitas de compartilhamento de informação, as conversas antes restritas a botecos. É um choque descobrir que amigos são tão ignorantes, levianos ou idiotas, claro, mas até isso tem seu lado positivo.
De certa forma, estamos diante de um problema das democracias maduras, que já superaram -ou deviam ter superado- questões graves referentes à liberdade de discurso. Ou seja, não estou falando da lei, que proíbe censura, calúnia, injúria e difamação. Nem da ética, que repele a desonestidade intelectual sem que seu autor precise ir para a cadeia. Estou falando é de etiqueta, a "pequena ética" que em sua face menos elitista propõe tolerar os modos alheios -um caminho para, quem sabe, prestar atenção ao que eles representam.
Isso porque linguagem e tom -que são maneiras de segurar os talheres num debate- nem sempre arruínam as ideias por terem aparência tosca. Dá um pouco de cansaço, por exemplo, quando bikers defendem suas propostas para o trânsito com tamanha agressividade. Ou quando a pecha de "fascista", misturada à teoria política da salmonela, aparece na discussão sobre bisnagas de plástico proibidas em feiras e lanchonetes. Ainda assim, tudo a favor de ciclovias e meios alternativos de transporte, e abaixo aqueles saquinhos tristes de ketchup e mostarda.
Num ensaio de 2005, um nome insuspeito quando o tema é a consequência das palavras -Salman Rushdie, que passou anos escondido por causa de um livro considerado blasfemo pelo Irã- escreveu: "Na Universidade de Cambridge, me ensinaram (...) que não se deve ser grosseiro com a pessoa com quem se discute, mas se pode ser extremamente grosseiro em relação a tudo que ela pensa". Parece uma citação descabida num texto sobre etiqueta. Na verdade, é a lembrança de uma regra ideal em debates: deveria importar o que é dito, e não quem diz. É o que impede um interlocutor de ser desqualificado por gênero, crença, classe ou etnia.
Forçando um pouco a boa-fé, por que não abstrair também o partido em que o interlocutor vota, a empresa jornalística onde trabalha, os amigos que tem? Ou suas deficiências retóricas, sua ingenuidade, sua queda pelo vitimismo, pelo sentimentalismo, pelo insulto? A distinção total entre texto e autor é utópica, e o conteúdo de uma ideia pode ser indistinguível de sua forma, e às vezes tudo se resume mesmo a interesse ou tolice, mas o esforço para enxergar um pouco além disso é sempre virtuoso. Pensar com liberdade, o melhor atalho para identificar o lado certo numa disputa, passa por ouvir e aprender com vozes dissonantes. Mesmo que o timbre delas seja mais frequente em zoológicos, penitenciárias e hospícios.
(Fabio Braga/Folhapress)
Michel Laub é escritor e jornalista. Publicou cinco romances, entre eles "Diário da Queda" (Companhia das Letras, 2011). Escreve a cada duas semanas, sempre às sextas-feiras, na versão impressa da "Ilustrada"